domingo, 17 de março de 2019

Paraíso Terrestre na Tradição Messiânica


Convalidação em Teologia
trabalho de conclusão de curso




Prof. Dr. Paulo Roberto Pedrozo Rocha




Aluno: Francisco Antonio Trianon de Souza









2016
PARAÍSO TERRESTRE NA TRADIÇÃO MESSIÂNICA


ABSTRACT

The messianic religious tradition like all theological currents and religious traditions present definitions and references on the theme "Earthly Paradise". The aim of this paper is to present the parameters, references and conditions from the point of view of the Earthly Paradise of messianic theology, guided the revelations of Meishu-Sama. And it is evident that despite following different paths to arrive at the same world full of happiness that all humanity craves. Recognizes the mission of other religious traditions as part of the same divine plan and that today is the Last Judgment, phase announcing Paradise.


RESUMO

A tradição religiosa messiânica como todas as correntes teológicas e tradições religiosas apresentam definições e referências sobre o tema “Paraíso Terrestre”. O objetivo deste trabalho é apresentar os parâmetros, referências e condições do Paraíso Terrestre do ponto de vista da teologia messiânica, tendo como guia as revelações de Meishu-Sama. E fica evidente que apesar de seguirem por caminhos diferentes chega-se ao mesmo mundo de felicidade plena que toda a humanidade almeja. Reconhece a missão das demais tradições religiosas como partes de um mesmo plano Divino e que na atualidade encontra-se no Juízo Final, fase que anuncia o Paraíso.



JUSTIFICATIVA
Todas as correntes teológicas e tradições religiosas apresentam definições e referências sobre o tema “Paraíso Terrestre”, que é mítico e ao mesmo tempo uma possibilidade de um futuro promissor aos crentes, entretanto, para os céticos uma quimera. O objetivo deste trabalho é apresentar os parâmetros, referências e condições do Paraíso Terrestre do ponto de vista da teologia messiânica, tendo como guia as revelações de Meishu-Sama para a construção deste ideário messiânico.

INTRODUÇÃO
Tradição é o fundamento da religião, que conserva os conhecimentos acerca de Deus e do mundo dos seus preceitos éticos e culturais de forma escrita ou oral. Em latim tradição: traditio, tradere tem o sentido de entregar; em grego, na significação religiosa do termo, a expressão é paradosis, é a difusão de práticas ou de valores espirituais de geração em geração, o conjunto da fé de um povo que é seguida e guardada com respeito por meio de diferentes gerações. A tradição edifica características próprias a cada crença e baseia-se em duas presunções, a primeira é que as pessoas são mortais e a segunda que é necessária uma ponte de conhecimento entre as gerações.
A Igreja Messiânica é classificada como uma das Novas Religiões Japonesas, é portanto, é uma filosofia recente que foi fundada em 1950 pelo religioso Mokiti Okada, cognominado Meishu-Sama. Razão pela qual a tradição religiosa messiânica encontra-se em meio do processo de construção. A transmissão das práticas e valores espirituais messiânicos dão seus primeiros passos, isto faz com que necessite de um embasamento teológico científico que permita ser transmitida de forma concreta as próximas gerações e consolide-se. 
Em praticamente todas as tradições religiosas o termo “Paraíso Terrestre”, traz consigo um sentido de esperança de dias melhores e solução de todos os problemas e anseios humanos. Razão pela qual este mundo ideal cujo os principais lideres religiosos em todos os tempos tanto se referem, tem ressonancia em todas as culturas e sociedades.
Meishu-Sama ao constituir a Igreja Messianica tem como objetivo central estabelecer o Paraíso Terrestre, que significa corrigir os erros da atual civilização, estabelecendo uma sociedade isenta de doença, miséria e conflito, que consiga desenvolver de maneira que a ciencia e religião estejam lado a lado contribuindo mutuamente. Portanto, a escolha do mote deste trabalho é Paraíso Terrestre que é o objetivo final da instituição da Igreja Messianica Mundial.

ORIGEM DO TERMO PARAÍSO
A palavra paraíso procede do termo avéstico pairi-daeza (uma área/jardim murada), composto por pairi- (ao redor), um cognato do grego peri-, e -diz (criar, fazer). Uma palavra associada é o sânscrito paradesha que literalmente significa país supremo.
Lugares habitualmente vistos como analogias de paraíso incluem: O lugar ideal, na terra ou utopia, outrora representado pelo Jardim do Éden. Um lugar descrito por diferentes religiões onde o clima é ameno, há abundância de alimentos e recursos, e não há guerras, doenças ou morte. Normalmente, a vida no paraíso seria a recompensa após a morte para as almas dos que seguem corretamente os preceitos de cada religião. Um jardim cercado ao estilo dos jardins persas, algumas vezes chamado de "jardim paradisíaco".
Fontes tão antigas como Xenofonte em seu Anabasis (401ac.), discorrem sobre o afamado "paraíso" dos jardins persas. Na dinastia persa dos Aquemênidas, período possivelmente anterior na Mesopotâmia, o termo não era só aplicado aos jardins "paisagistas", mas notadamente às terras selecionadas as diversões reais, o que seria a forma mais antiga de reserva para a vida selvagem, destinada para a prática da caçada como esporte. Em várias culturas relaciona-se ao contato com a natureza, é retratado como um eterno campo de caçadas, não apenas em culturas relativamente primitivas, como por exemplo, os índios norte-americanos, mas também em civilizações mais avançadas, essencialmente agrícolas, como os "Campos de Junco" dos egípcios e os Campos Elíseos dos gregos.

PARAÍSO TERRESTRE NA TRADIÇÃO MESSIANICA
No ensinamento “O que é a Igreja Messiânica Mundial”, Meishu-Sama confirma a finalidade e o caminho que pretende adimplir o projeto de construção do Paraíso Terrestre: “A Igreja Messiânica Mundial tem por finalidade construir o Paraíso Terrestre, criando e difundindo uma civilização religiosa que se desenvolva lado a lado com o progresso material. ” (Okada, 1950).
Confere ao termo adotado “Paraíso Terrestre” a um anseio humano e cita, o tempo, a razão, fatos históricos, profetas e religiosos que também tinham este mesmo desejo de concretizar a vontade do Altíssimo.
“Não há dúvida de que "Paraíso Terrestre" é uma expressão que se refere ao mundo ideal, onde não existe doença, pobreza nem conflito. O "Mundo de Miroku", anunciado por Buda, a chegada do "Reino dos Céus", profetizada por Cristo, a "Agricultura Justa", proclamada por Nitiren, e o "Pavilhão da Doçura", idealizado pela Igreja Tenrikyo, têm o mesmo significado. A diferença é que não se fez indicação de tempo. Mas eu cheguei à conclusão de que o momento se aproxima. E o que significa isto? É a hora da "Destruição da Lei", prevista por Buda, e do "Fim do Mundo" ou "Juízo Final", profetizado por Cristo. ” - O que é a Igreja Messiânica Mundial, Alicerce do Paraíso (25/01/1949).

Meishu-Sama retoma a mesma afirmativa no ensinamento: “A construção do Mundo de Miroku”:
“O Mundo de Miroku é, sem dúvida, o Paraíso profetizado por Cristo e o Mundo de Miroku pregado por Sakyamuni. E esse mundo ideal está prestes a nascer. De acordo com a minha sensibilidade espiritual, os alicerces já foram levantados no Mundo Espiritual. Dessa forma, em futuro próximo, não há dúvida de que o Mundo de Miroku se projetará no Mundo Material. Estamos realmente repletos de felicidade por termos nascido numa época tão gratificante. ” - “A construção do Mundo de Miroku”, Pão Nosso de Cada Dia – Coletânea Série Jikan, vol. 12. (30/01/1950).

                   Ainda sobre o tempo no qual ocorrerá tal acontecimento, esclarece que é agora e explica o quão imperioso esta temporalidade:
“Naturalmente não havia chegado o tempo, pois a noite cobria o Mundo Espiritual. Entretanto, a partir de 1931, o Mundo Espiritual vem gradualmente se transformando em dia, facilitando a construção do Paraíso na Terra. Sendo Deus o construtor, a obra progride à mercê do tempo, bastando ao homem agir de acordo com a Vontade Divina. Deus traçou o plano, fiscalizando e utilizando livremente um número considerável de criaturas. ” -“Características da Salvação pela Igreja Messiânica Mundial”, Alicerce do Paraíso (5/10/1949).
               
Meishu-Sama deixa claro que apesar de ser um desejo da humanidade, olhando o mundo atual e a realidade em que está inserido, parece algo utópico e extremamente distante, todavia em busca de oferecer fundamentos para credibilidade a suas asseverações, cita grandes religiosos que o precederam, como que a dissuadir esta desesperança e resignação ante a força dos argumentos da impossibilidade de tal transformação:

“Qualquer pessoa tomará por um sonho descabido o objetivo da nossa Igreja - construir um mundo sem doenças, pobreza e conflitos, ou seja, o Paraíso Terrestre, que corresponde ao "Advento do Reino dos Céus", pregado por Cristo, ou à "Vinda do Messias", da religião judaica. Sakyamuni disse que, depois de sua morte, surgiria um mundo perfeito. Não afirmou, entretanto, que esse mundo estivesse iminente; ao contrário, disse estar infinitamente longe: 5.670.000.000 de anos. Todas essas profecias foram de grande utilidade. Se não houve referência a um plano de execução, devemos interpretar que ainda não era chegado o tempo, mas sabemos que a aceitação e a prática dos ensinamentos pregados pelas religiões antigas tornaram-se o alicerce das religiões atuais. ” - Ultra-Religião, Alicerce do Paraíso (20/07/1949).

                Em seus textos indica que a atual condição da humanidade, nada mais é que uma fase rumo a concretização de profecias bíblicas e um sinal de que o tempo para a realização de seu intento está maduro, e sendo este o tempo certo, tudo que é necessário para sua execução será provido por Deus, que é de fato o idealizador de tal Obra, bastando ao homem que se disponha a Sua vontade:

“Creio que, para o momento atual, os pontos mais importantes da Bíblia estão resumidos nestes três: "Juízo Final", "Advento do Reino dos Céus" e "Segunda Vinda de Cristo". Um estudo sério sobre tais fatos leva-nos a crer que o Juízo Final é obra de Deus, que a Segunda Vinda de Cristo ocorrerá no seu devido tempo, dispensando, portanto, qualquer explicação, e que somente o Reino dos Céus será construído com a força do homem. Nesse caso, é indispensável que alguém se torne o arquiteto e execute a construção. Quanto ao tempo, segundo o nosso conceito, trata-se do presente; quanto ao construtor, a nossa Igreja. A obra já foi iniciada por nós. Referi-me diversas vezes, neste livro, ao protótipo do Paraíso, que está sendo construído atualmente. ” - Concretização da Profecia do Reino dos Céus – O Paraíso Terrestre, Alicerce do Paraiso. (20/03/1950).


Desta forma a construção do Paraíso Terrestre ou Reino dos Céus na terra necessita efetivamente da participação do homem como seu executor. Esta é uma determinação de Deus, para concretização de Seu plano e ainda elucida, que é a missão da Igreja Messiânica e que cada fiel contribuirá para este intento.

“A profecia de Cristo se realizará com a construção do Paraíso Terrestre, efetuada pela nossa Igreja. Mas não pretendo que, desse fato, advenha orgulho, pois a concretização da profecia bíblica se deve ao Amor Universal de Deus, que utiliza Seus escolhidos para a construção do Mundo Ideal, segundo a necessidade da época. Portanto, como a obra que estamos efetuando foi profetizada há dois mil anos por Cristo, considero cada um de nossos fiéis como participante da missão de concretizar tal profecia. ” - Concretização da Profecia do Reino dos Céus – O Paraíso Terrestre, Alicerce do Paraiso. (20/03/1950).


Deus em seu amor universal considera o homem Seu representante e enfaticamente define que cabe ao homem a função de empenhar-se neste intento Divino, no trecho seguinte explana o que será o Paraíso Terrestre:

“O Paraíso Terrestre pode ser compreendido como o Mundo dos Felizes. Será um mundo de alta civilização, isento de doença, pobreza e conflito. Cabe a nós, entretanto, encontrar a forma de minorar o sofrimento humano e transformar em Paraíso este mundo repleto de males. ” -Paraíso Terrestre, Alicerce do Paraíso (25/01/49).


Ao ser referir a um mundo de alta civilização, já é possível perceber claramente que o mundo atual chegou ao ápice da evolução humana, pois a cada dia surgem inovações tecnológicas extraordinárias e surpreendentes, que conduzem a vida humana a uma qualidade cada vez melhor nos diversos campos de sua atividade. É possível perceber que materialmente todas as condições que estão dispostas poderão ser úteis para a concretização do Paraíso. Está posto a tecnologia para saúde, encontrando respostas e alternativas para tratamentos e curas. Para mobilidade, criando meios cada vez mais modernos, rápidos, ecológicos e práticos. No conforto para o cotidiano com residências mais criativas e agradáveis bem como trabalho menos repetitivo, estressante, cansativo e etc.  É possível afirmar que materialmente já é possível construir um mundo ideal.
O TEMPO PARA O PARAÍSO CHEGOU?
Refletindo sobre a temporariedade de qual seria a razão para que Meishu-Sama anuncie que é o momento atual e porque não tempos anteriores, e porque seria Ele o executor desta empreitada e não outro profeta? Esclarece, que por meio de revelação Divina foi lhe anunciado que é chegado o tempo.

“Como o mundo se achasse completamente mergulhado na Era da Noite e a Era da Luz estivesse longe demais, não havia necessidade de preparativos para a concretização do Paraíso Terrestre. Em outras palavras, estava-se na época infernal. Encontrando-se em condição infernal e não em situação celestial, os fundadores de religiões, para difundir seus ensinamentos, tiveram de percorrer caminhos espinhosos e passar por enormes sofrimentos. Sendo assim, não havia motivo para se falar em Paraíso ou Arte, e até podemos dizer que nenhum deles afirmou que iria construir o Paraíso Terrestre. Contudo, houve profecias sobre o advento de um mundo ideal, embora não se esclarecesse quando. Entre elas, podemos citar o "Mundo de Miroku", anunciado por Buda; o "Reino dos Céus", profetizado por Cristo; a "Agricultura Justa", de Nitiren; o "Pavilhão da Doçura", do fundador da Igreja Tenrikyo, e o "Mundo dos Pinheiros", do fundador da Igreja Oomotokyo. Foi-nos revelado, porém, que finalmente o tempo é chegado. Como o Paraíso está prestes a nascer, queremos anunciar o seu advento para toda a humanidade. ” - Religião e Arte, Alicerce do Paraíso. (06/05/1950).

Na doutrina messiânica, crê-se que Deus criou a humanidade e traçou um plano que estabeleceu não só o tempo, mas traçou uma estratégia com toda uma dinâmica com a qual o mundo ideal, Paraíso, será estabelecido.
“Nós, messiânicos, cremos em Deus, Criador do Universo. Cremos que, desde o início da Criação, Deus objetivou estabelecer o Céu na Terra e tem atuado continuamente para a concretização desse objetivo. Com tal propósito, fez do ser humano o Seu instrumento para servir ao bem-estar da humanidade, condicionando a ele todas as demais criaturas e coisas. Cremos, portanto, que a história humana do passado constitui estágios preparatórios, degraus para se alcançar o Céu na Terra. Para cada época, Deus envia o Seu mensageiro e as religiões necessárias, cada qual com sua missão. Cremos que, no presente, quando o mundo vagueia em tão caótica situação, Deus enviou o Mestre Meishu-Sama, fundador da Igreja Messiânica Mundial, com a suprema missão de realizar o Seu sagrado objetivo de salvar toda a humanidade. Por conseguinte, visando à concretização do Mundo Ideal, de eterna paz, perfeitamente consubstanciado na Verdade-Bem-Belo, empenhamo-nos em fazer sempre o melhor, erradicando a doença, a pobreza e o conflito, as três grandes desgraças que assolam este mundo. ” - Doutrina da Igreja Messiânica Mundial, Alicerce do Paraíso – (11/03/1950.)
           
Meishu-Sama explica que está erigindo protótipos para que conscientize as pessoas do significado do surgir da Igreja Messiânica e sua missão:

“Visando à concretização do Plano Divino, a Igreja Messiânica Mundial não mede esforços para promover a Arte. E é para iniciar essa promoção que estamos construindo os protótipos do Paraíso Terrestre de Hakone e Atami, em locais de magnífica paisagem. Se as pessoas não estiverem conscientes desses pontos, não conseguirão entender o verdadeiro significado do nascimento de nossa Igreja. Em resumo, as religiões existentes até hoje tiveram a missão de preparar os alicerces para a construção do Paraíso Terrestre, e a missão da Igreja Messiânica Mundial é concretizá-la. ” - Religião e Arte, Alicerce do Paraíso. (06/05/1950).


O Paraíso Terrestre na tradição messiânica é a concretização da vontade de Deus que veio por através dos tempos e nos mais diversos locais e culturas utilizando seus mensageiros que advertiram e prepararam a chegada deste tempo que é a atualidade.
O tempo é chegado, entretanto as condições para que se estabeleça o Paraíso ainda não estão completas, e estas se referem ao próprio homem que ainda não consegue compreender a vontade Divina que está implícita nas situações do cotidiano. O principal ingrediente desta distância é o ceticismo na existência de Deus, que tem como resultado o ser humano excessivamente apegado a bens materiais e extremamente egoísta.
Este diagnóstico é possível, pois dentre os buscam o auxílio da religião, este é um traço em comum.  O homem só o faz quando após várias tentativas materiais logradas, chega a um beco sem saída, no seu desespero acaba por tentar como última alternativa a religião, e diante de Deus se vê obrigado a acreditar no imponderável poder invisível. Apreende desta forma sua limitação e de sua própria crença no materialismo. De tal modo que diante do inconteste milagre percebe e passa a admitir a misteriosa e poderosa força Divina. Força que está construindo o Paraíso Terrestre.


nO Paraíso messiânico os escolhidos serão os entes celestiais.

O Paraíso segundo os textos de Meishu-Sama será construído de maneira compartilhada entre Deus e o homem, isto é o Criador utilizará da criatura para executar seu plano de estabelecer o mundo ideal:

“... Deus pretende formar o protótipo do Paraíso como início do advento do Paraíso Terrestre. Mas isso não é o bastante. Compete a cada homem tornar-se um ente celestial, e é chegado esse momento. Naturalmente, seu lar será paradisíaco e todos os componentes da família virão a ter uma vida celestial. Somente assim poderão ser salvas as pessoas que sofrem no "inferno". - Características de Salvação pela Igreja Messiânica Mundial, Alicerce do Paraíso (5/10/1949).


As condições deste projeto não se restringem ou dão ênfase a engenharia ou construção de prédios ou jardins, mas a principal reforma é a do sentimento do ser humano, assim no texto “Nascimento da Igreja Messiânica Mundial” escreve que o Paraíso será estabelecido para o homem e pelo homem.

“... A condição fundamental para se construir o Paraíso Terrestre, objetivo de nossa Igreja, é que o indivíduo se eleve e adquira a qualificação de ente celestial. Como o mundo é um agrupamento de indivíduos, se aumentar o número de pessoas com essa característica, obviamente surgirá o Paraíso Terrestre...”. - Nascimento da Igreja Messiânica Mundial, Luz do Oriente (20/11/50).


Meishu-Sama, afirma ser um direito do ser humano estar inserido neste mundo vindouro, sendo um direito nativo a sua criação:

“O homem veio à Terra com a missão de auxiliar na concretização das condições ideais do planeta, de acordo com o Plano Cósmico. Quando ele vive em conformidade com esse Plano é naturalmente abençoado com a saúde, a felicidade e a paz, a que tem direito inalienável. ” - Missão do Homem, Novos Tempos, (1986).


Razão pela qual o homem reconhecendo a existência de Deus e se submetendo a sua vontade, como consequência será abençoado com prosperidade, saúde de paz. No texto, ainda deixa claro que o principal e fundamental é o homem. E que a sua transformação é que possibilitará o sucesso deste projeto, portanto, este será afetado diretamente por esta transformação, logo qualquer homem está apto a participar deste evento.

“Seria uma felicidade se o Paraíso Terrestre pudesse ser estabelecido sem que isso afetasse o homem. Antes, porém, é indispensável destruir o velho mundo a que pertencemos. Para a construção do novo edifício, faz-se necessária a demolição do prédio velho e a limpeza do terreno. Deus poupará o que for aproveitável – e a seleção será feita por Ele. Eis a razão pela qual é importante que o homem se torne útil para o mundo vindouro. Ultrapassar a grande fase de transição significa ser aprovado no exame divino, e a Fé é o único caminho para obtermos aprovação. (...)” - O que é a Igreja Messiânica Mundial, Alicerce do Paraíso (25/01/49).

E os efeitos e consequências em toda a volta devido a transformação do homem:

“O Paraíso Terrestre a que costumamos nos referir, é, em termos mais claros, o Mundo do Belo. Em relação ao homem, é a beleza dos sentimentos, o Belo espiritual. Naturalmente, as palavras e atitudes do homem devem ser belas. Da expansão do Belo individual nasceria o Belo social, isto é, as relações pessoais se tornariam belas, assim como também as casas, as ruas, os meios de transporte e as praças públicas. Em grande escala, como é natural que a limpeza acompanhe o Belo, a Política, a Educação e as relações econômicas também se tornariam belas e limpas, da mesma forma que as relações diplomáticas entre os países. ” - Considerações sobre o Paraíso Terrestre, Alicerce do Paraíso (03/06/1950).

Para os messiânicos, segundo seus textos sagrados, todos sem exceção podem adentrar o paraíso, e isto não configura a uma conversão à fé messiânica, mas para tanto é mister transformar-se em um ente celestial, alguém que preencha as condições naturais do que a própria sociedade definiu como características peculiares a condição humana.

“Seria uma felicidade se o Paraíso Terrestre pudesse ser estabelecido sem que isso afetasse o homem. Antes, porém, é indispensável destruir o velho mundo a que pertencemos. Para a construção do novo edifício, faz-se necessária a demolição do prédio velho e a limpeza do terreno. Deus poupará o que for aproveitável - e a seleção será feita por Ele. Eis a razão pela qual é importante que o homem se torne útil para o mundo vindouro. Ultrapassar a grande fase de transição significa ser aprovado no exame divino, e a Fé é o único caminho para obtermos aprovação. As qualificações para ultrapassar essa fase são as seguintes: a) tornar-se um homem verdadeiramente sadio, e não apenas na aparência; b) um homem que se libertou da pobreza; c) um homem de paz, que odeia o conflito. Deus resguardará aqueles que tiverem essas três grandes qualificações e deles se utilizará, como entes preciosos, no mundo que vai surgir. Certamente não há discordância entre os desígnios de Deus e os ideais do ser humano. Portanto, haverá um caminho que permita estabelecer as condições requeridas. Mas como poderemos obtê-las? Nossa Igreja tem por objetivo orientar as pessoas e transmitir-lhes a Graça Divina, possibilitando-lhes criar tais condições. ” - O que é a Igreja Messiânica Mundial?, Alicerce do Paraíso (25/01/1949).


Para fazer parte deste Paraíso Terrestre a seleção será feita por Deus, mediante um exame divino que se configurará em o ser humano se tornar útil ao mundo que está em construção. Nada mais natural e justo que no Paraíso porvindouro vivam aqueles que tem características paradisíacas. Assim sendo, qualquer homem pode por sua livre escolha e decisão adentrar as portas do paraíso futuro.
No trabalho social que as religiões prestam em auxilio as pessoas que estão em sofrimento, desenvolvem de acordo com sua doutrina um trabalho solidário, seja por meio de ações temporárias por meio de campanhas ou mantendo organizações que prestam serviços aos menos favorecidos. Estas levam não só a palavra de suas orações e de sua doutrina para o conforto espiritual, mas principalmente o auxílio material esperado.
Muitas são as creches, asilos, fundações, clinicas, hospitais e etc., mantidos pelo empenho grandioso de religiosos de várias denominações. O objetivo destas instituições inicia por minorar o sofrimento do homem sem almejar lucro ou mesmo a conversão. Tem o simples objetivo de minorar o sofrimento alheio, muitas vezes na tentativa reproduzir a postura de amor e caridade de seus fundadores. Isto é francamente percebido pela sociedade. É, portanto, a oportunidade de prestar serviço doando seu tempo, seu dinheiro, seu talento no acompanhamento aos menos favorecidos buscando a transformação do mundo.
Não estarão com estas atitudes, a religião tornando o mundo menos árido de amor, mais fraterno? Esta atitude não permite visualizar pessoas que estão em busca de construir um mundo melhor? Naturalmente que as duas respostas são positivas, e vê-se aí a proximidade do Mundo Paradisíaco, pois este número de pessoas que se importam com os status degradante da sociedade é cada vez maior.

JUÍZO FINAL, ANTEVESPERA DO MUNDO IDEAL
A fé messiânica considera que o tempo estabelecido para a concretização do Paraíso Terrestre é chegado. Surge desta forma o questionamento: Como ocorrerá esse processo? Quais as condições necessárias para que tão complexo plano seja executado? A Igreja Messiânica define algumas condições, alguns critérios descritos por Meishu-Sama para que identifique os futuros habitantes do mundo ideal.
Ao falarmos de Paraíso Terrestre, como já foi discorrido anteriormente, parece utópico, pois na atualidade, a humanidade vive diante de tantas guerras, doenças, catástrofes e miséria que este afamado Paraíso é algo extremamente distante ou reservado apenas à uns poucos “escolhidos”. Entretanto, segundo Meishu-Sama é este um processo de purificação, ou em termos cristãos “expiação dos pecados”, pelo qual o mundo passa para que alcance o tão sonhado Paraíso. Afirma que este período pré paradisíaco é o “Juízo Final” anunciado por Jesus Cristo. Todas estas situações nada mais são do que a atuação de Deus para que o homem reflita sobre sua condição, natureza e altere a sua conduta, percebendo assim que existe uma força invisível que move todas as coisas. E que esta força nada mais é que a atuação de Deus.
No texto Juízo final, confirma a sua crença da tradição messiânica na profecia cristã:

“Em primeiro lugar, é necessário definir se realmente haverá um Juízo Final. Ora, um ser Divino como Cristo, que hoje é alvo da fé de milhares de seguidores no mundo inteiro, entre os quais se contam povos de nações superdesenvolvidas, não profetizaria algo que não acontecerá. Caso sua profecia não se concretize, ele não passará de um simples mentiroso. Portanto, embora não sejamos cristãos, acreditamos nela piamente. (...). Sobre o bem e o mal também existem as seguintes profecias: "Destruirei o mal pela raiz e construirei o Mundo do Bem"; "O Mundo do Mal já acabou"; "O Mundo do Mal atingirá o seu ápice aos noventa e nove por cento, e, com a ação de um por cento, será transformado no Mundo do Bem"; "Finalmente está chegando a hora da transição do mundo". Todas elas, creio eu, não podem dizer respeito a outra coisa senão ao Juízo Final. É aquilo a que estamos nos referindo constantemente como sendo a Transição da Noite para o Dia. Há uma frase também relacionada a essa transição: "O momento crítico deste mundo está prestes a chegar; por isso, nosso espírito precisa estar polido". Tais palavras significam que é impossível o ser humano transpor esse período estando cheio de máculas. Tomando a Bíblia como base e analisando o sentido das profecias citadas, podemos afirmar que nos encontramos na iminência de um grande perigo; para ultrapassá-lo, precisaremos estar com o espírito purificado. Isso quer dizer que o homem mau será eliminado para sempre. Se assim for, torna-se imprescindível purificarmos nosso espírito através de uma fé correta, a fim de que possamos transpor essa fase com segurança”. - Juízo Final, Alicerce do Paraíso (20/01/1950).

É possível por meio do texto acima, perceber que o “Juízo Final” é um estágio que antecede o estabelecimento do Paraíso e um período de avaliação cujo o nome “Juízo” tem seu significado. Ainda alerta que para ultrapassá-lo com segurança é necessário estar com espirito purificado através de uma fé correta em Deus.

“Creio que, para o momento atual, os pontos mais importantes da Bíblia estão resumidos nestes três: "Juízo Final", "Advento do Reino dos Céus" e "Segunda Vinda de Cristo". Um estudo sério sobre tais fatos leva-nos a crer que o Juízo Final é obra de Deus, que a Segunda Vinda de Cristo ocorrerá no seu devido tempo, dispensando, portanto, qualquer explicação, e que somente o Reino dos Céus será construído com a força do homem. Nesse caso, é indispensável que alguém se torne o arquiteto e execute a construção. Quanto ao tempo, segundo o nosso conceito, trata-se do presente; quanto ao construtor, a nossa Igreja. A obra já foi iniciada por nós. Referi-me diversas vezes, neste livro, ao protótipo do Paraíso, que está sendo construído atualmente. A profecia de Cristo se realizará com a construção do Paraíso Terrestre, efetuada pela nossa Igreja. Mas não pretendo que, desse fato, advenha orgulho, pois a concretização da profecia bíblica se deve ao Amor Universal de Deus, que utiliza Seus escolhidos para a construção do Mundo Ideal, segundo a necessidade da época. Portanto, como a obra que estamos efetuando foi profetizada há dois mil anos por Cristo, considero cada um de nossos fiéis como participante da missão de concretizar tal profecia. ” - Concretização da Profecia do Reino dos Céus – O Paraíso Terrestre, Alicerce do Paraíso (20/03/1950).


Desta forma fica evidenciado que como sequência do processo do Juízo Final, ocorrerá a “segunda vinda de Cristo” e por fim o estabelecimento do “Reino dos Céus na Terra”, que nos termos da tradição messiânica é identificado como Paraíso Terrestre. Este Juízo já está em processo e Deus se utiliza de alguns meios e caminhos os quais Meishu-Sama descreve:

“Nesses termos, o Paraíso Terrestre, que vem a ser a meta da nossa Igreja, inicia-se no lar. O aumento gradativo de lares celestiais chegará a transformar o mundo num paraíso. Se essa verdade fosse compreendida, ninguém deixaria de louvar a Igreja Messiânica Mundial e nela ingressar. Como os homens têm a mente afetada por conceitos materialistas e ateístas, ou por religiões de caráter limitado, perdem a oportunidade de conhecer essa alegria, por desconfianças e equívocos. Entretanto, a verdade sobre a nossa Igreja não deixará de vir à luz; estou à espera desse dia, lutando incessantemente, sob Orientação Divina. ” - Religião Celestial e Religião Infernal, Alicerce do Paraíso (25/03/1953).


Se o lar é onde inicia a construção do Paraíso, a sua transformação depende do indivíduo que é o principal constituinte do lar, como fica claro no texto “Grandioso Mundo da Luz”, proferido em 1º de janeiro de 1935, na oportunidade em que Meishu-Sama institui a Dai Nippon Kanon Kai, primeiro nome da Igreja Messiânica Mundial.

(...). “Explicando melhor, surgirão lares isentos de doenças, miséria e conflitos, e, consequentemente, despontará um mundo isento desses males. Doença, miséria e conflito é o mesmo que doença, fome e guerra, ou seja, as três pequenas calamidades, mas acho mais adequadas aquelas denominações. Sem nenhuma sombra de dúvida, tudo isso será totalmente eliminado. Até então, por melhor que fosse a Fé professada, não se conseguiam lares isentos dessas desgraças, mas agora, professando a fé em Kannon, eles se tornarão uma realidade. (...) A construção do Grandioso Mundo da Luz parece ser muito difícil, mas não é tanto assim; basta que o mundo se encha de lares sem doença, miséria e conflito, pois, com isso, ficará banhado de verdadeira paz. ” - Luz do Oriente, vol.2. (1º/1/1935).


Para que o homem torne um ente celestial é preciso que liberte-se da doença, miséria e conflito e Meishu-Sama índica o caminho descrevendo as etapas:

“Inicialmente, precisamos descobrir como eliminar a doença, pois, entre as três grandes desgraças que citamos, ela é a principal. Em seguida, temos de vencer a pobreza, cuja causa primária é a doença; os pensamentos errados, as falhas políticas e a deficiente organização social são causas secundárias. Quanto à inclinação para o conflito é motivada pelo estado selvagem de que a humanidade ainda não conseguiu se libertar. Portanto, é essencial eliminar as três grandes desgraças. Como adquiri confiança na solução desses problemas, vou esclarecer a realidade da forma mais simples possível. Se considerarmos que o Paraíso Terrestre é o Mundo dos Felizes, concluiremos que, no lugar onde as pessoas se reúnem e se tornam felizes, está estabelecido o Paraíso Terrestre. ” - Paraíso Terrestre, Alicerce do Paraíso - (25/01/1949).


                   Na tradição messiânica, considera-se que estão em pleno processo do Juízo final, que o surgimento de inúmeras doenças, catástrofes naturais, guerras, violência em todos os níveis sociais, tudo isso é orquestrado pela força Divina, como intuito de que o homem seja purificado e ainda corrija seus pensamentos e sentimentos que são egoístas e materialistas. Tornando assim um ser que expiou todos seus pecados, purificou-se e que tornou-se um ente celestial, transformando seus pensamentos, palavras e ações altruístas e espiritualistas.
                   Alcançando este nível de compreensão o mundo se tornará ameno, no qual as pessoas viverão em verdadeiro estado de paz, saudável e prospero. Na crença messiânica, portanto, fica evidente que o Paraíso Terrestre é a reunião de pessoas repletas de felicidade.

CONCLUSÃO
                   Neste artigo almejou-se apresentar o olhar da tradição messiânica sob o tão ansiado “Paraíso Terrestre” que é o objetivo final de todas as tradições religiosas, apesar de designações dessemelhantes. Na fé messiânica o Paraíso é o resultado do amor Divino, que constituiu Seu plano desde o início da criação, visando a evolução do ser humano no aspecto material e espiritual. A cada tempo, o Criador enviou Seus mensageiros, isto é, os profetas que transmitiram a graça Divina e manifestavam a Sua força por meio de milagres, que conduziram o homem até o momento atual em que todas estas condições estão estabelecidas. Para a tradição messiânica este tempo é chegado, e as guerras, catástrofes e fome, nada mais são que o famigerado e temido “Juízo Final”, que representa a véspera do estabelecimento deste Paraíso. Desta forma na tradição messiânica o Paraíso é a sua missão. Para estabelece-lo é preciso que o homem reconheça a existência de Deus, entre em sintonia com a Sua vontade e liberte-se da doença, da miséria e do conflito, tornando-se um ente celestial, um ser pleno de felicidade.
















BIBLIOGRAFIA
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MOA – Fundação Mokiti Okada – Meishu-Sama - Pão Nosso de Cada Dia, O alimento espiritual do cotidiano. 2ª Edição, São Paulo, setembro de 1995.

MOA – Fundação Mokiti Okada – Biografia de Mokiti Okada, Luz do Oriente, Volume 2, São Paulo, 1ª Edição, junho,1983.

Poarch, Tommy – O Reino dos Céus na Terra -  Estudos Bíblicos, estudosdabiblia.net - 2015 Karl Hennecke, USA. Disponível em < http://www.estudosdabiblia.net/a15_23.htm>. Último acesso 25/10/2016.

SOARES, Carla – O Paraíso é aqui – Revista das Religiões, Edição 19, março de 2005. Editora Abril. Disponível em < http://www.fonaper.com.br/noticia.php?id=360>. Último acesso 23/10/2016.

WIKIPEDIA –Paraíso - Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/wiki/Para%C3%ADso>. Último acesso em 29/09/2016.

WIKIPEDIA – Jardim do Éden - Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/wiki/Jardim_do_Éden>. Último acesso em 29/09/2016.

Qual é de fato a relevância do Ensino Religioso no Ensino fundamental


Curso de Pós-Graduação em Docência Superior


Francisco Antonio Trianon de Souza



Título: Qual é de fato a relevância do Ensino Religioso no Ensino fundamental



                            Monografia apresentada à FACULDADE UNYLEYA
como exigência parcial à obtenção
do título de Especialista em Docência Superior
Sob a orientação
 da Professora Ms. Aline Sampaio de Oliveira







Cidade – São Luís - MA
2018


Resumo

Vivemos em um mundo globalizado, no qual o volume e a velocidade com que as informações transitam e ultrapassam todas as fronteiras, ocorrem de forma tão célere, que muitas vezes nos impede de até mesmo processá-las com clareza e exatidão, razão pela qual nos impõem cada vez mais amplitude e complexidade nas relações humanas. Em contrapartida, se as relações se multiplicam, as diferenças também, todos se encontram em todos os lugares em todos os momentos. Portanto, são oportunizadas cada vez mais situações de trocas, compartilhamentos, mas também embates e atritos entre essas diferenças. O espaço escolar é sem dúvida um dos territórios onde primeiro converge este encontro, e manifestam toda essa diferenciação social, que são o sexo/gênero, classe, etnicidade, idade, deficiência e orientação sexual. É, portanto, o local do primeiro confronto, sendo este ideal para tratar deste assunto, o preconceito que tem seu berçário no desconhecimento da realidade, cultura e razão do outro. Não seria então o melhor caminho para dirimir este preconceito, a inserção do ensino religioso no ensino fundamental? E quais seriam estas contribuições? A religião em sua natureza ensina e incentiva valores éticos, morais e de prática do altruísmo. No ambiente de uma comunidade religiosa as diferenças convivem em harmonia, disseminando a ajuda e o apoio mútuo diante as dificuldades que aquela comunidade enfrenta e em muitos casos estendem este auxílio aos desvalidos e necessitados que não fazem parte do seu ambiente religioso. Naturalmente sem que uma cultura religiosa venha prevalecer sobre a outra, a apresentação e a discussão dos princípios religiosos de cada uma das principais religiões de nosso país, já fornecerá conhecimentos aos alunos para compreender a opção religiosa do outro, bem como incentivaria a inclusão, o apoio mutuo e convivência harmoniosa entre as diferenças sociais, tomando por base os princípios disseminados por todos os movimentos religiosos que é o respeito, altruísmo, fraternidade e solidariedade.

Palavras-chave: Ensino Religioso. Inclusão. Educação. Ensino Fundamental. Religião. Preconceito.


Abstract:

We live in a globalized world in which volume and speed  that informations travels and crosses all borders occurs so rapdly that often prevents us even from processing them with clarity and accuracy, reason why they impose us more and more breadth and complexity in human relations. In contrast, if relationships multiply, the differences either, everybody meets everyone everywhere everytime. Thus, there are more opportunities to exchange, share, but also clashes and friction between these differences. The school space is undoubtedly one of the places where this encounter first converges and manifest all this social differentiation which are sex/gender, social class, ethnicity, age, disability and sexual orientation. This is, thus, the first place of confrontation, being this ideal do deal with this subject, the prejudice that has its nursery in the ignorance of the reality, culture and other person’s reason. Would not be the best way to resolve this prejudice the insertion of religious teaching in elementary education? And what would these contributions be? Religion in its nature teaches and encourages ethical and moral values and practice of altruism.  In the environment of a religious community the differences coexist in harmony, disseminating aid and mutual support in face of difficulties that community faces and in many cases extend this help to the underprivileged and needy that don’t belong to their religious enviroment. Naturally, without one religious culture prevailing over another, the presentation and discussion of the religious principles of each of the major religions of the country already provide students with the knowledge to understand the other’s religion choice, as well as encourage inclusion, mutual support and harmonious coexistence between social differences, based on the principles dissemineted by all the religious movements that is respect, altruism, fraternity and solidarity.
.

Keywords: Religious education. Inclusion. Education. Elementary School. Religion. Preconception































“A educação que eu proponho inclui tudo que é conveniente para um homem, e é tal que todos os homens nascidos neste mundo deveriam dele participar. Todos, portanto, tanto quanto possível, deveriam ser educados juntos, de modo que se possam estimular e incitar mutuamente.”

João Amós Comênius, em Didática Magna, pag. 200.
SUmário


























INTRODUÇÃO


A educação sistematizada e organizada para a construção do processo de ensino-aprendizagem como se conhece hoje, teve sua gestação no movimento da reforma protestante, na Alemanha no início do século 16, como resultado da perspectiva de Martinho Lutero que incentivou a criação de escolas elementares, com objetivo de oferecer condições a população de ler e interpretar as escrituras sagradas diretamente na sua fonte. A contribuição deste método na propagação do movimento da reforma protestante foi tão efetiva que despertou no catolicismo a necessidade estabelecer um instrumento para contrapô-lo, fazendo surgir escolas católicas. O trabalho mais contundente neste sentido, foi o empreendido pela Companhia de Jesus, fundada em 1540 por Santo Inácio de Loyola, sendo inclusive a responsável pela fundação da primeira escola no Brasil. Durante longo tempo todas as escolas para o ensino de leitura e escrita estavam ligadas a movimentos religiosos. Com a dicotomia do estado e a igreja, como efeito laicismo surgido no fim do século 19, deu-se início a um processo lento, do afastamento do ensino religioso como obrigatório para um ensino opcional ou facultativo.

No Brasil a Constituição promulgada em 1988, define o Estado brasileiro como um estado laico, isto é, não pertence a uma religião ou nem tão pouco está sujeito a influência desta. Mas estabelece normas para ensino opcional nas instituições de educação fundamental, advertindo o respeito a livre expressão de crença a qualquer culto religioso.

A educação no Brasil, tem sofrido com sérios problemas, que vão desde a estrutura física precária e inadequada das escolas, formação e capacitação insuficiente dos docentes que conduzem o processo de ensino aprendizagem, até o comportamento violento e agressivo dos discentes no ambiente escolar. Não seria o Ensino Religioso um dos caminhos que possibilitará restaurar o equilíbrio nas relações entre o corpo docente e discente em meio a este ambiente de caos?

As religiões têm como premissa a formação de homens íntegros que valorizam as atitudes éticas e morais tão escassas atualmente, o que leva ao pressuposto de que a inserção da religião no ensino permitirá o cultivo de cidadãos melhores. Não interferindo na liberdade de culto, consentirá aos que não têm religião em seu cotidiano, a oportunidade de conhecer vários pensamentos filosóficos religiosos existentes na sociedade, identificando e reconhecendo as diversidades e incentivando o respeito e a compreensão religiosa.

A discussão sobre a relevância do Ensino Religioso se torna importante, pois a Constituição do Brasil e LDB (Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional) torna facultativo o ensino nas escolas públicas de ensino fundamental, isto é, o aluno que desejar pode assistir as aulas, todavia, quem não considerar importante para si poderá optar por não participar. O mesmo ocorrerá com as Instituições que optarem por oferecer o ensino religioso, terá que assegurar o respeito a diversidade religiosa. Como será possível colocar em prática tão complexa diretriz?

Surge então o seguinte questionamento: Qual é de fato a relevância do Ensino Religioso no Ensino Fundamental? Em uma sociedade globalizada que enfrenta tantos paradigmas, a busca por uma escola inclusiva, nos remete a reflexão que o outro é diferente de nós e, portanto, nós deles. Entende então que não há distinção, mas sim valores diversos. Então, não seria a melhor forma de vencer qualquer preconceito conhecer a razão do outro. Isto é, a crença do outro? Não seria o desinteresse na inclusão do Ensino Religioso, um preconceito do pensamento laico? Quais contribuições o Ensino Religioso no ensino fundamental poderá fornecer para a educação e formação? Ou o ensino religioso não colabora para o processo de formação crítica e reflexiva da sociedade?

Nesse contexto, a monografia visa identificar, analisar, descrever e apresentar conceitos, acepções e argumentos que permitam identificar a relevância do Ensino Religioso no Ensino Fundamental. Essa monografia utilizará metodologia bibliográfica, distribuída em seis capítulos, verificando em fontes documentais e bibliográficas informações que permitam identificar quais são as contribuições que o Ensino Religioso pode fornecer ao Ensino Fundamental. Analisar os dados encontrados e esclarecer como as contribuições do Ensino Religioso pode agregar valores ao Ensino Fundamental. Descrever e apresentar as contribuições que o Ensino Religioso trará ao Ensino Fundamental.

O que é o laicismo?


O vocábulo laico tem o seu significado em: Aquele que não sofre influência ou controle por parte da igreja, aquele que ou quem não pertence ao clero ou não fez votos religiosos. É afirmativo neste o sentido crítico quanto à influência da religião na condução dos interesses sociais, isto é, na política e na economia contemporânea. Este pensamento nasceu no fim do século XIX, como um movimento filosófico que contestava a intimidade entre o Estado e a Igreja. Esta corrente filosófica defendeu teoricamente e na prática esta separação, exigindo neutralidade do Estado em assuntos da Igreja e da mesma forma da Igreja em assuntos do Estado. Todavia o laicismo, ou secularismo, como também é conhecido, não prega a constituição de um Estado ateu, mas a equidade dos direitos, deveres e obrigações de todos os cidadãos. Permitindo desta forma a liberdade de consciência e defesa da ascendência humana e democrática do Estado.

O laicismo ou secularização é um fenômeno histórico-social resultante do avanço da modernidade. Observa-se que nos diversos campos da vida social da atualidade não se baseiam em fundamentos religiosos, como no passado recente. Isto é, na modernidade os alicerces filosóficos apresentam uma concepção de mundo e de homem que se afastaram das forças mágicas, divinas das sociedades tradicionais e primitivas, exigindo visões baseadas na ciência, na técnica e no racionalismo. Para corroborar estas afirmativas conforme o sociólogo inglês Bryan Wilson (1969, pag.55 apud Ranquetart Jr. 2008, pag.68):

Un aspecto importante de los cambios externos que afectaron al papel de religion en la sociedad del siglo XIX fue el desarrollo de una Weltanschaung pragmática. La expansion de la ciencia y el hecho de que las operaciones científicas ‘se probaban a sí misma’ a los ojos del hombre de la calle, condujeron a um nuevo procedimiento comprobador, pragmático, de todo sistema ideológico. La ciencia no solamente explicaba muchas facetas de la vida y de su entorno material de un modo más satisfactorio que la religión, sino que ofrecía también la confirmación de sus explicaciones mediante los resultados práticos de éstas. (WILSON,1969, pag.55).

Vemos, portanto, que o pragmatismo advindo da expansão da ciência, isto é, da influência cotidiana da ciência na vida humana, exigiu comprovações e explicações satisfatórias das afirmativas e dos resultados alcançados.

Na atualidade pode-se classificar politicamente os países em duas posições: os laicos e os não laicos. Os países que tem posição laica não permitem a interferência da religião na política. Por outro lado, os países não laicos são teocráticos, a religião possui uma função ativa na política, na constituição e em todas as esferas da vida social. Dentre tantos, podemos citar o Vaticano que é um Estado Católico, o Irã que é um país Muçulmano e a Tailândia que é um país Budista.

É importante esclarecer que há diferença entre a laicidade e o laicismo. O laicismo é uma ideologia que almeja se impor como única cabível para o mundo ocidental. Sendo uma ideologia tem aceitação pela grande imprensa e pelas mídias em geral. Entretanto, a laicidade percebesse como uma propriedade daquilo que não possui caráter ou vinculação religiosa, como exemplo, as escolas laicas e escolas confessionais.

Educação Religiosa na ldb


A Constituição brasileira de 1988 que se caracterizou pela amplitude democrática e liberal, intencionando garantir os direitos dos cidadãos. É considerada fundamental na consolidação do Estado democrático de direito no país, bem como noção de cidadania, o que fez com que seja conhecida como uma Constituição Cidadã.

Com este viés foram debatidos os temas concernentes a educação que estabeleceu as diretrizes e bases da educação nacional que estão em vigor no Brasil, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB), Lei 9.394, de 20 de dezembro de 1996, foi regularizado o sistema de educação brasileiro. A primeira Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB) foi criada em 1961, uma nova versão veio em 1971, que permaneceu até 1996. É explicito o desejo da construção de uma educação como um processo amplo que se dá em diversas instâncias de convivência humana.

Na LDB, Lei 9.394, na redação dada a Lei 9.745 de 22 de julho de 1997 consta a seguinte redação:

“Capítulo II, da Educação Básica, Seção III do Ensino Fundamental, no artigo 33, orienta que o ensino religioso, de matrícula facultativa, é parte integrante da formação básica do cidadão e constitui disciplina dos horários normais das escolas publicas de ensino fundamental, assegurando o respeito à diversidade cultural religiosa do Brasil, vedadas quaisquer formas de proselitismo.” (BRASIL, 1997).


Neste texto afirma que é facultativo a matrícula na disciplina, entretanto, determina que constitui disciplina dos horários normais das escolas publicas de ensino fundamental, desta forma entrando em contradição com o artigo 24 em seu inciso primeiro que determina que a carga mínima anual de 800 horas divididas em 200 dias de trabalho efetivo em sala de aula. Se a matrícula se torna facultativa a obrigatoriedade não se aplica, todavia, o número de horas no fim do ano letivo para os que não optarem por matricular-se estará insuficiente. Outro ponto contraditório aparentemente é: Vedadas quaisquer formas de proselitismo, isto é, proselitismo é criar prosélitos, pessoas convertidas para uma nova religião, doutrina, ideologia, filosofia ou causa.

Portanto, uma situação difícil de ser solucionada pedagogicamente é a do ensino religioso (art. 33), uma vez que compõe disciplina obrigatória dos horários normais das escolas públicas de ensino fundamental, permitindo ser abordada como conteúdo linear ou tema transversal, contudo, a lei proíbe o proselitismo religioso. Nas aulas de ensino religioso é proibido defender, propagar ou propagandear uma determinada religião. Em síntese, e na prática, nas aulas de religião é proibido falar de religião, o que é, no mínimo, contraditório e incompatível.

Na Revista Último Andar, publicação da PUC-SP, no número 26, no artigo de Stigar (2015), cita o trabalho de mestrado de 1999, de Anísia de Paulo Figueiredo no qual apresentou pesquisas das principais discussões sobre a legalização do Ensino Religioso e como nasceram os conflitos e como procederam as negociações como os diversos setores da sociedade. Argumentou o seguinte:

Resta saber o que realmente sustenta tais interesses; quem são os interessados; que mecanismos de controle utilizam para chegarem ao legislativo em que se dão tais negociações; a quem realmente interessaria a questão; para que fins; a que resultados conseguem chegar; há concretização do que é proposto na teoria, ou fica a ilusão de uma aparente realidade a eu muitos consideram como conquista. (FIGUEIREDO, 1999, apud STIGAR, 2015, pag.91).

Com novas discussões na busca de soluções para dirimir estes pontos obscuros da lei, foi decretada após acaloradas discussões no primeiro semestre de 1997, a lei n° 9475 de 22/07/1997, que alterou o artigo 33 da LDB 9394/96 que passa a vigorar com a seguinte redação: 

Art. 33 - O ensino religioso, de matrícula facultativa, é parte integrante da formação básica do cidadão, constitui disciplina dos horários normais das escolas públicas de ensino fundamental, assegurado o respeito à diversidade cultural religiosa do Brasil, vedadas quaisquer formas de proselitismo. §1o - Os sistemas de ensino regulamentarão os procedimentos para a definição dos conteúdos do ensino religioso e estabelecerão as normas para a habilitação e admissão dos professores. §2o - Os sistemas de ensino ouvirão entidade civil, constituída pelas diferentes denominações religiosas, para a definição dos conteúdos do ensino religioso; Art. 2o. Esta lei entra em vigor na data de sua publicação. E Art. 3o. Revogam-se as disposições em contrário. (BRASIL, 1997).


Segundo Gil Filho (2005, apud STINGER, 2015, pag.112) esta lei, atualmente em vigor, introduziu um forçoso diálogo entre os sistemas estaduais de ensino e organizações multirreligiosas e interreligiosas dedicadas especificamente à educação. A lei busca garantir que a escola de Ensino Fundamental ofereça condições aos alunos o acesso ao conhecimento religioso. Não é colocar a escola como institucionalizadora da religião, pois este é de competência das próprias igrejas e crenças religiosas. À competência da escola é oferecer o acesso ao conhecimento religioso, a seus elementos epistemológicos, sociológicos e históricos. Podendo certamente, utilizar o fenômeno religioso e de sua diversidade, não obstante, estabelecer uma ou outra forma de religiosidade em objeto de aprendizagem escolar. Na aula de Ensino Religioso nossas crianças têm que ter acesso ao conhecimento religioso, não aos preceitos de uma ou de outra religião. (ZIMMERMANN, 1998, pag. 11). O sancionado substitutivo do artigo 33, com o número 9475, de 1997, define o Ensino Religioso como disciplina normal do currículo das escolas públicas, sendo do Estado a responsabilidade pela contratação de professores. Entretanto mantém o Ensino Religioso como matrícula facultativa; autonomiza aos estados da federação a acepção dos critérios para contratação dos professores; determina que o Ensino Religioso não possa ser proselitista e que as Secretarias de Educação devem ouvir entidade civis, constituída pelas diferentes denominações religiosas, para a definição dos seus respectivos conteúdos.

No âmbito legal a discussão sobre o tema continua sem uma resolução final. Em agosto de 2017 a Procuradoria Geral da União levou a pauta do Supremo Tribunal Federal com objetivo de contestar o limite das aulas sobre o ensino religioso em escolas públicas ao contexto não confessional, a ação solicitou ainda a invalidade de uma clausula do acordo entre o Brasil e o Vaticano que prevê a promoção do ensino “católico e de outras confissões religiosas”, solicitando religiosamente a neutralidade.  Entretanto, apesar do placar apertado em 27 de setembro de 2017, por 6 votos a 5, o Supremo Tribunal Federal decidiu, que o ensino religioso ministrado em escolas públicas pode ser confessional, ou seja, pode promover crenças específicas.

Ciências da Religião, Ciencia da Religião ou teologia


Para Junqueira (2017) a educação é uma ação social que materializa a dimensão humana. Pois sua história é a síntese da relação do homem com as ideias, a arte, a ciência, e as diversas experiências vivenciadas por várias gerações que na convivência e as adequações ao grupo a que pertence reproduziram modos culturais de ser, estar e agir. Como necessidade da formação do ser humano moderno a educação escolar, foi sistematizada e tornou-se um instrumento de socialização do conhecimento e do exercício da cidadania democrática. Desta forma a escola é um espaço cultural de transmissão da cultura e de socialização dos saberes produzidos e acumulados ao longo do tempo pelos diferentes povos.

Após a abertura política nos anos 80, a educação brasileira que vinha de uma formação tecnocrática, que objetivava moldar o cidadão para um desenvolvimento industrial e tecnológico, se voltou para um viés sociológico, humanístico e crítico construindo uma dinâmica social que busca incorporar à cultura, a diversidade. Assim a reflexão sobre a diversidade cultural na educação escolar brasileira, a partir da Declaração Mundial sobre a Educação para todos, que atribuiu à educação a responsabilidade de desenvolver e respeitar toda a herança cultural de determinada população. A Declaração Mundial sobre a Educação foi um documento elaborado na Conferência Mundial sobre Educação para Todos, realizada na cidade de Jomtien, na Tailândia, em 1990. Este documento fornece definições e novas abordagens sobre as necessidades básicas de aprendizagem, pretendendo estabelecer compromissos mundiais que permita acesso a todos aos conhecimentos básicos imperativos a uma vida digna, na construção de uma sociedade mais humana e mais justa. O objetivo deste documento é o esforço de longo prazo para a consecução do objetivo de acessibilidade a aprendizagem e que seja amparado de forma mais eficaz, uma vez estabelecidos objetivos intermediários e medidos os progressos realizados. De acordo com a Declaração:

“Cada pessoa – criança, jovem ou adulto – deve estar em condições de aproveitar as oportunidades educativas voltadas para satisfazer suas necessidades básicas de aprendizagem. Essas necessidades compreendem tanto os instrumentos essenciais para a aprendizagem (como a leitura e a escrita, a expressão oral, o cálculo, a solução de problemas), quanto os conteúdos básicos da aprendizagem (como conhecimentos, habilidades, valores e atitudes), necessários para que os seres humanos possam sobreviver, desenvolver plenamente suas potencialidades, viver e trabalhar com dignidade, participar plenamente do desenvolvimento, melhorar a qualidade de vida, tomar decisões fundamentadas e continuar aprendendo.” (MENESES E SANTOS, 2001).

Assim, os países que assinaram o documento foram incentivados a elaborar Planos Decenais, em que as diretrizes e metas do Plano de Ação da Conferência fossem contempladas. No Brasil, o MEC divulgou o Plano Decenal de Educação Para Todos para o período de 1993 a 2003, elaborado em cumprimento às resoluções da Conferência. E tem desde então empenhado em cumprir os compromissos assumidos nesta declaração.

O ensino religioso é, portanto, um conteúdo básico da aprendizagem, pois a religião é parte integrante e integrada da cultura do povo brasileiro, envolto, sincrético e permeado em toda a sua diversidade cultural, racial e social. Desta forma contribui veementemente para as construções de valores éticos, morais e sociais do povo brasileiro. A área do conhecimento abrange três dimensões dialógicas que arquitetam o conhecimento sobre um objeto: A dimensão de saberes específicos, dos referenciais teóricos e a metodológica e sugere a forma de ensinar sobre um objeto específico. Estas três dimensões contíguas compõem uma área de conhecimento submetida a um classificador. No Brasil o CNPQ (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico), cumpre o papel de orientador das instituições de ensino, pesquisa e inovação, utilizando um conjunto de informações sobre pesquisas e material humano que as realiza. Existem desta forma quatro níveis: 1. Nove grandes áreas de conhecimentos; 2. Áreas de avaliação da Coordenação de aperfeiçoamento de pessoal de Nível Superior – CAPES. 3. Subáreas de conhecimentos - objeto de estudo e procedimentos metodológicos; 4. Especialidade, enquadramento temático relacionado a atividades de pesquisas e ensino.

O Ensino Religioso é enquadrado neste esquema considerando o seu objeto que é a religião ou o religioso. Apesar de que é insuficiente e limitada as conceituações teóricas para tanto. A religião é um referencial que expressa fenômenos, fatos e tradições ligados ao religioso que não contém um único significado. Conforme Elisa Rodrigues em Ensino Religioso e área do conhecimento, afirma:


“Parte-se do entendimento de que a religião é para além de algo que se pratica (enquanto crença), um tema a ser estudado e compreendido a luz da razão. Aqui, portanto, vislumbra-se a religião a partir de um conceito flexível que o observa tendo em vista suas relações com a cultura, com a sociedade, com as instituições (sobre o objeto da Ciência da Religião, a religião, cf. Rodrigues, 2015, pag. 207 – 211). O que se observa da religião, por conseguinte, é como  se manifesta, quais são e como são construídos os seus discursos (mitos e teologias), quem são suas personagens e seus atores sociais (tipos de lideranças, adeptos e processos de adesão), que tipo de orientação concedem (doutrinas e códigos de usos e costumes), em que espaços se concretizam (espacialidade) e que praticas e calendários propõem (rituais). (RODRIGUES, 2017, pag.119).

Percebesse então que o esquema de classificação proposto pelo CNPq/CAPES, as Ciências Humanas é a área que abarca o estudo da religião, bem como Filosofia, Teologia, Sociologia, Antropologia, Arqueologia, História, Geografia, Educação, Psicologia e Ciência Política. A inserção da teologia na ciência da religião é justificada por Elisa Rodrigues citando três regiões de interesse em comum sintetizadas por Etienne A. Higuet (2006, pag. 38): “a referencia ao absoluto (transcendente, ultimo ou sagrado); a referência ao simbólico e ao ritual; a referencia aos lugares de pertença, de tradição e de experiencia”. Para Rodrigues é relevante a afinidade que é consequência da proximidade entre os dois campos: a visão por meio da qual trata o seu objeto em comum, a religião ou o religioso, que é a sua ciência interpretativa (ou hermenêutica). Ou seja, a ciência da religião envolve a categoria de “sentido”, sem perder aspectos históricos, políticos e sociais. Assim sendo a Ciência da Religião classifica-se como área de conhecimento no campo de estudos da religião que a considera a partir de suas extensões características: a simbólica (da interpretação do signo, significado, sentido) e a institucional (da estruturação, da compreensão do controle e da normatividade).

A religião, ou os fatos religiosos serviram de pano de fundo para o processo de difusão de um grande conjunto de informações sobre as diferentes civilizações, culturas, tradições e formas de organização que a Europa aglutinou no período das grandes navegações. Informações estas que vieram da África, Ásia e Américas, formando a consciência do pluralismo cultural. Ao perceber o pluralismo cultural como realidade social e histórica, comparando diversos os grupos sociais, com seus costumes e tradições conduz-nos a uma percepção de que a religião supera o âmbito da crença e dos círculos clericais, levando-os até o interior dos centros universitários e de produção do saber. Espaços estes nos quais o importante é compreender a religião como interferente na vida humana, como uma de suas dimensões. Desta maneira constrói-se o argumento fundamental como justificativa da relevância do estudo sobre religião na escola, buscando compreender a religião como dimensão da vida humana. Corroborando este pensamento Rodrigues (2017) escreve:

“Com base nesse entendimento, pode-se afirmar que os estudos de religião que se desenvolvem na(s) Ciência(s) da(s) Religião(ões) visam atinar para a religião ou o religioso considerando(a) a região de atribuição dos sentidos(b) e a dimensão do desdobramento desses significados – ou capacidade de interpelação – em diferentes contextos sociopolíticos. Daí que o instrumental teórico e metodológico mobilizado para a elaboração de análises que contemplem as ambiguidades da religião, ultrapassando o estágio da redução (seja essencialista, o funcionalista, o historicista, o economicista etc.) em direção à sua compreensão em sentido mais amplo, sugere uma abordagem interdisciplinar mais atenta aos temas e conteúdos do que a algum método específico.” (RODRIGUES, 2017, pag. 121).


Ao referir-se sobe o Ensino Religioso Rodrigues prossegue:

“(...) o objeto religião não pode ser totalmente apreendido por um método de estudo. Tal proposta resultaria impreterivelmente numa visão parcial do que seja a religião e, embora não se considere viável uma visão completa do assunto em questão, é objetivo das ciências apreender seus temas de estudo tanto mais seja possível. Tal discussão preliminar visa à construção do seguinte argumento: reivindicar a(s) Ciência(s) da(s) Religião(ões) como área de referência para o ER significa, como consequência, autenticar o saber sobre as religiões como tipo de conhecimento fundamental para a formação cidadã, principalmente, em razão de sua interface com as dimensões histórica, social, econômica, política, artística, cultural e psíquica. Isso significa dizer que o que interessa ao ER o conhecimento da religião com uma das dimensões constitutivas da vida humana, na qualidade de conteúdo que perpassa as esferas da vida privada e pública, materializando-se em orientações (ortodoxias e ortopraxias) que dispõem sobre a vida de pessoas cidadãs, individual e coletivamente.” (RODRIGUES, 2017, pag. 122).



A partir desta perspectiva pode-se conhecer elementos presentes nas relações sociais, isto é, o conjunto de crenças, ideias e práticas religiosas que influenciam as ações sociais, razão pela qual a necessidade do estudo e compreender a religião ou o religioso. O que é importante na religião é a atribuição de sentidos e o desdobramento destes nas relações sociais, na construção da subjetividade e nas identidades sociais. Estes são aspectos pertinentes a Ciência da Religião que tem condições de fornecer subsídios específicos, teóricos e instrumentos metodológicos ao Ensino Religioso, adequando ao ambiente escolar.

Segundo nomenclatura definida pelo CAPES, Ciência da religião é a área de estudo acadêmico de religião que incluí a interpretação, comparação, descrição, a explicação de ideias, textos, comportamentos, instituições, linguagens (símbolo, mito, rito e doutrina) e praticas das mais variantes tradições religiosas, como ainda a reflexão sobre os conceitos que cada âmbito desses movimenta, sem implicar a superioridade de uma tradição religiosa sobre as outras.

O conceito de Ciência da Religião foi apresentado pelo Friedrich Max Müller foi um linguista, cientista das religiões, orientalista e mitólogo alemão, foi o fundador dessa área acadêmica. A área, por envolver outras disciplinas, num aspecto interdisciplinar e que se tornaram posteriormente denominadas de subdisciplinas ou subáreas. A concepção sobre a Ciência da Religião descreve como uma disciplina comparativa:


“Müller concebia a Ciência da Religião como uma disciplina comparativa que busca pelo conhecimento das religiões. Em relação à Ciência da Religião, é permitido dizer que, diante do seu objeto, sua base científica não permite atitudes teológicas, confessionais e dogmáticas. Segundo Hock (2010), a Ciência da Religião é uma disciplina empírica que investiga sistematicamente a religião em todas as suas manifestações e fenômenos. Um fator importante para sua caracterização é o compromisso de seus representantes com o ideal da neutralidade frente aos objetos de estudo. Em outras palavras, não se questiona a “verdade” ou a “qualidade” de uma religião. Do ponto de vista metodológico, religiões são “sistemas de sentido formalmente idênticos”. É especificamente esse princípio que distingue a Ciência da Religião da Teologia.” (STIGAR; TORRES e Ruthes, 2014, pag. 141 e 142).


A Ciência da Religião recebe colaborações teóricas de diversas áreas do conhecimento: história, sociologia, antropologia, psicologia, filosofia, linguística, teologia etc., portanto é interdisciplinar. Solicita um recorte epistemológico e metodológico que apresente uma hermenêutica com o foco em seu objetivo principal. A psicologia da religião concentra-se nos processos religiosos que compreendam as peculiaridades do elemento psíquico. A sociologia da religião ate-se as relações recíprocas entre religião, sociedade e política. A geografia das religiões averígua as relações entre espaço e religião, seja cultural ou físico. A teologia é parte da finalidade, redefine metodologicamente, não se restringindo à exposição de uma doutrina religiosa.

Deparamos aqui com uma divergência na nomenclatura: “Ciência da Religião”, “Ciências da Religião”, “Ciências das Religiões”. Cada um desses termos tem uma epistemologia adequada, não permitindo um consenso a esse respeito no meio acadêmico. A Ciência da Religião, como sinônimo, objetiva identificar a especificidade da religião, com base em um “método unificador”, trazendo um referencial único que transcorre por toda a área do conhecimento denominada de fenômeno religioso. Por outro lado, as Ciências da Religião é um “campo disciplinar”, com uma estrutura diligente e abertura para a distinção metodológica, onde se privilegia a pluralidade, com disciplinas auxiliares.

Objetivando ser mais abrangente possível a Ciência da Religião estrutura um inventário especializado. O cientista da religião precisa ter suspensão de juízo, conhecido como conceito de “ateísmo metodológico”, que abandone sua crença pessoal e mantenha um compromisso ético-científico de pesquisador para com o objeto.

A Teologia, como disciplina, tem como competência: pesquisar, definir, averiguar e entender todos os fatos hermenêuticos, colocações teológicas, palestras, ensinos e demais apreços em relação à interpretação das Escrituras de qualquer cultura religiosa. Sua pretensão é avalizar interpretações corretas das escrituras sagradas.

A Teologia, embora possa questionar dados ou interpretações comunicadas pela tradição, não questiona a tradição em si. Ela admite como premissa de sua reflexão ser a tradição uma doadora de sentido consistente. Isto é, a de sua reflexão ser a tradição uma doadora de sentido consistente. Isto é, a tradição representa uma fonte com chance de ser verdadeira por remontar a um conjunto coerente de testemunhas referenciais, por sua vez conectadas a uma origem ontológica presumida.”
(STIGAR; TORRES e Ruthes, 2014, pag. 142).


Segundo Ford (2005, apud Stigar; Torres e Ruthhes 2014), o termo “Teologia” admite vários significados e ajuntamentos conotativos, como “pensamento religioso”, “filosofia religiosa”, O autor também faz uma indicação ao próprio termo “Teologia”. Como segue:

“De acordo com ele, o nome não é utilizado em todas as tradições religiosas e pode rejeitado por algumas tradições; por isso, é um termo que deve ser pensando a partir de sua historicidade. De acordo com Ford, na verdade, a sabedoria (embora em si uma ideia complexa com diferentes significados e termos análogos em diferentes tradições) é talvez o termo mais abrangente e menos controverso para definir a Teologia. “Sabedoria” pode abraçar significados como descrever, compreender, explicar, conhecer e decidir, não apenas em relação a assuntos empíricos, mas também em relação aos valores, normas, crenças, a fim de edificar vidas, comunidades e instituições. Ademais, o mesmo autor explica que existem inúmeras tradições teológicas que se originaram em outras partes do mundo, além da Europa. Algumas, inclusive, que representam importantes ramos de estudo dentro das universidades contemporâneas. (STIGAR; TORRES e Ruthes, 2014, pag. 144).


Como estudo, a Teologia é apresentada de acordo com as características acadêmicas de um campo de estudo que suscitou a chamada Ciências da Religiões ou a Ciência da Religiões. Na análise dessa tradição, a Teologia é uma disciplina controversa devido ao seu tema, história e relação com outras disciplinas nas questões religiosas e devido ao caráter das universidades que a apoiam. É necessário captar que a Teologia acadêmica se diferencia da Teologia em geral, devido a relação com as várias disciplinas da academia. Por isso numa visão superficial da Teologia acadêmica, esta pesquisa e investiga a sabedoria e a compreensão de questões como: verdade, beleza e prática, questões que são exames sobre e entre as religiões por intermédio da relação as disciplinas acadêmicas.

Stigar, Torres e Ruthes, (2014) citam Dreher (2011), que afirma que o reconhecimento da existência de uma relação dialética e de pertencimento mútuo entre a Teologia e a Ciência da Religião, começando pelas origens históricas, o que minimiza as tensões entre Ciência da Religião e Teologia.  Na Idade Moderna, a Teologia dominava de forma isolada os assuntos religiosos. Com o advento do Iluminismo esse paradigma foi rompido. No mundo atual é imperativo uma nova Teologia Universal, que deveria ser acessível e natural a qualquer um, independente do credo o qual professa. Todavia, há um questionamento recorrente a Teologia Universal no seguinte ponto: será que ela é mesmo uma disciplina possível? Se considerarmos a Ciência da Religião como uma disciplina que assume a pesquisa acadêmica da religião, não é possível reconhecer a Teologia Universal como disciplina, pois não há uma reflexão teológica que amplie o universo para o fenômeno religioso, pois o universo religioso é mais extenso do que qualquer religião. Todavia, ao considerar a dimensão espiritual como indispensável para a formação integral das pessoas, obrigasse a garantir um espaço teológico no lugar e/ou em conjunto com a Ciência da Religião, tanto no ambiente escolar quanto universitário, trabalhando na formação holística do cidadão. Gisel (1999) apud Stigar; Torres e Ruthes, (2014) argumenta que a Teologia reparte com a Ciência da Religião três pontos de comum interesse: a menção ao absoluto (transcendente, último ou sagrado); a menção ao simbólico e ao ritual; e a menção aos lugares de tradição, pertença, e de experiência. Dentre os problemas enfrentados para que a Teologia siga um caminho reconhecido no meio acadêmico, precisa se desvencilhar da influência que as instituições religiosas têm sobre sua argumentação, Stigar, Torres e Ruthes (2014) citando Teixeira (2001):


“A Teologia pode e deve ocupar o seu lugar de disciplina acadêmica na universidade. Para tanto, ela necessita, porém, de “liberdade institucional frente à igreja, assim como de um lugar no espaço público das ciências”. Teixeira (2001) argumenta que a Teologia é convocada a romper com o seu entrincheiramento na comunidade de fé e deixar-se provocar pelos desafios atuais, interessando-se pelos grandes temas que se relacionam com o bem comum da sociedade e da comunidade humana. Teixeira (2001) acrescenta que a Teologia precisa de liberdade acadêmica para o exercício hermenêutico criativo. Precisa de abertura e despojamento para se deixar interrogar pelos desafios da ciência. E, ainda, reforçar o seu espírito crítico, capaz de reagir a determinados paradigmas em curso na modernidade pós-tradicional.” (STIGAR; TORRES e Ruthes, 2014, pag.146).



Ao citar Usarski (2007), Stigar; Torres e Ruthes, (2014) consideram necessário assinalar que entre a Ciência da Religião e a Teologia existe distinção, “não para separar, mas para poder possibilitar um intercâmbio cada um sabendo desde que lugar epistemológico, desde qual corpo teórico e pressupostos está falando”. Ao perceber o fenômeno religioso de maneira mais ampla, entende que seu estudo não pode ser tutelado pela teologia ou pela filosofia, pois o fenômeno religioso instiga e suscita curiosidade nas mais variadas ciências e áreas de conhecimento.

Para Soares (2008) também abordado por Stigar, Torres e Ruthes, (2014) afirmam que é imprescindível estabelecer um diálogo, entre o teólogo e o cientista da religião. É necessário entender que se a Teologia tiver aspecto universal, se abre para a Ciência da Religião; todavia, se for confessional, permanece dogmática, razão pela qual o que resta é tentar dialogar. A Ciência da Religião, tem suas origens leigas e sua prática em universidades europeias e estadunidenses. Desta forma agregou a autonomia e liberdade do pensamento acadêmico na produção das pesquisas e estudos religiosos, pois sua produção não tem tutela ou ligação com as autoridades religiosas. Na Academia, o ponto vital do conhecimento que é produzido em Ciência da Religião está na interdisciplinaridade. A produção da Ciência da Religião, estabeleceu vínculos com disciplinas cujas intenção e foco de pensamento ligam-se a outros campos da vida social. Afora isso, os estudos se adequam aos métodos dessas outras disciplinas, por isso, o foco desses estudos em religião estabelece questões como a essência, descrição e função da religião, a língua da religião, a origem da religião e da comparação das religiões. Ao utilizar a interdisciplinaridade, surgem as questões sob o filtro de disciplinas como a filosofia, a psicologia, a sociologia, a fenomenologia e antropologia. Ação religiosa circunda entre todos os campos sociais, assinala e se reflete nas variadas formas do conhecimento humano. Desta forma o pesquisador deve buscar, junto à Ciência da Religião, subsídio em outras disciplinas, como a Psicologia, a Sociologia, a Antropologia, a Filosofia, a Teologia etc., para formar-se integralmente, e compreender a realidade ao qual está inserida.

Concluímos que a distinção entre Ciência da Religião e Teologia está na maneira pela qual abordamos. Sinteticamente conclui-se que os teólogos são religiosos especialistas, já os cientistas da religião são especialistas em religião. Esse é o ponto central da diferenciação. Porém é perceptível também que a Teologia e a Ciência da Religião têm no mundo acadêmico, uma função em comum, a de regulador crítico. Não há outro propósito explicativo em comum entre essas disciplinas acadêmicas.


Parâmetros para o curriculo do ENSINO RELIGIOSO (ER) no Brasil

Como componente curricular do estudo do fenômeno religioso o Ensino Religioso é uma área de conhecimento, que no entendimento de Catão (1995), “é a vida na totalidade”. Está registrado nos Parâmetros Curriculares Nacionais de Ensino Religioso – PCNER (2002), a vida é própria de todo ser humano bem como uma situação original que se abre ao infinito e, ao mesmo tempo suscita a sua preservação. Ao considerar a experiencia religiosa do ser humano como um fenômeno, reconhecendo a si próprio no contexto cultural religioso em que se situa a diversidade e a constante busca de sentido para os questionamentos existenciais do ser humano.

Na proposta apresentada na Base Nacional Comum Curricular do Ministério da Educação, o Ensino Religioso pedagogicamente expressa os conhecimentos transversais das Ciências da Religião, Ciências Humanas e Sociais dialogando com em eixos curriculares que abordam o ser humano e sua transcendência, conhecimentos simbólicos e espirituais, das práticas éticas religiosas e não religiosas.

“O Ensino Religioso, articulado às demais áreas e componentes curriculares do Ensino Fundamental, tem como objeto de estudo o conhecimento religioso produzido no âmbito das culturas e tradições religiosas (indígenas, africanas, afro-brasileiras, judaico, cristã, islâmica, espiritas, hindus, chinesas, japonesas, semitas, movimentos místicos, esotéricos, sincréticos, entre muitos outros), e o conhecimentos não religiosos (ateísmo, agnosticismo, materialismo, ceticismo, entre outros), assumindo a pregunta, a pesquisa e o diálogo como princípios metodológicos orientadores dos processos de observação, identificação, análise, apropriação e ressignificação de saberes, organizando-se a partir das seguintes perspectivas: 1. Identidades e Diferenças: aborda o caráter subjetivo e singular do humano a partir do estudo da corporeidade, alteridade, dignidade, imanência-transcendência, religiosidade, subjetividade, territorialidade, relações interculturais e de bem viver. 2.Conhecimentos dos fenômenos religiosos/ não religiosos: contempla os aspectos que estruturam as culturas e tradições/movimentos religiosos, a partir de estudo de mitos, ritos, símbolos, ideias de divindades, crenças, textos orais e escritos, doutrinas, literaturas, valores e princípios religiosos. Incluem-se, ainda, as convicções, filosofias, e perspectivas seculares de vida. 3. Ideias e práticas religiosas/ não religiosas: aborda as experiencias e manifestações religiosas nos espaços e territórios; as práticas celebravas, simbólicas, rituais, artísticas, espirituais; a atuação das lideranças religiosas; as instituições religiosas e suas relações com a cultura, política, econômica, saúde, ciência, tecnologias, meio ambiente, questões de gênero, entre outros (Brasil, 2016, pag.175-176).


Desta perspectiva a religião deve ser abordada na escola como objeto de estudo que contribuíra para a formação cidadã, no exercício de ciência sobre a religiosidades e as espiritualidades em suas expressões simbólicas e valorativas. Pretende-se uma educação sobre a religião e da espiritualidade, e não uma educação para a prática religiosa, que é competência das denominações religiosas.
A Igreja Católica que empenhou-se ativamente na conquista do espaço para o Ensino Religioso nas escolas de ensino fundamental, incluiu em suas linhas de atuação a avaliação, análise e acompanhamento do Ensino Religioso, debatendo a diferença entre este ensino e a Catequese, priorizando o respeito a liberdade religiosa, expressado pela CNBB, Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, citando Junqueira e Wagner em 2011.

[...] O Ensino Religioso na escola é um direito e dever dos alunos e dos pais. É uma dimensão fundamental e necessária de toda a educação, bem como uma exigência da liberdade religiosa de cada pessoa, que tem direito a condições que lhe permitem progredir em sua formação espiritual. O Ensino Religioso nas escolas é normalmente distinto da Catequese nas comunidades. Para o cristão, é particularmente importante para conseguir a síntese criteriosa entre a cultura e a fé. Não tratamos aqui dos problemas específicos do ensino religioso, que deve ‘caracterizar-se pela referência aos objetivos e critérios próprios da estrutura escolar’ (CNBB, 1983 apud JUNQUEIRA e WAGNER, 2011, pag.110).


O Brasil como um Estado laico necessita formar cidadãos críticos e responsáveis, que consigam discernir claramente a dinâmica dos eventos religiosos que envolvem a vida em âmbito pessoal, nacional e mundial. As diferentes fés e confissões religiosas, bem como a falta delas por convicções filosóficas, são aspectos da realidade que necessitam ser socializados como as questões socioculturais, que fornecem fundamentos as nossas ações.

Possíveis contribuições do Ensino a Formação inclusiva



Pedagogicamente o Ensino Religioso deve trazer de volta os valores humanos que as espiritualidades podem trazer a educação. Ao compararmos os modelos de Ensino Religioso até hoje utilizados, identificasse a transição de cosmovisão unireligiosa e plurirreligiosa para a transreligiosa. Isto é, no espaço escolar de hoje, o desafio é ser colaborativo a comunidade e pensar sempre de forma globalizada e agir de forma localizada, favorecendo as vivências mais terapêuticas e emancipadoras de espiritualidade, além de oferecer uma aprendizagem crítica sobre a espiritualidade religiosa e não religiosas da humanidade.

Ao enfatizar o aspecto pedagógico do Ensino Religioso, o conhecimento dos conjuntos de respostas que as religiões oferecem aos seus adeptos é relevante, na medida em que requere o conceito das diversidades religiosas e suas especificidades, o que contribuirá para a promoção de respeito justiça e solidariedade. No viés hermenêutico, a construção de um Ensino Religioso reflexivo que objetiva a competência em orientar a construção de conhecimentos sobre o fenômeno religioso que seja esclarecedor, crítico e, simultaneamente, capaz de formar uma consciência solidaria de reconhecimento e respeito pelas alteridades religiosas, étnicas e culturais.

Estas reflexões conduzem ao questionamento: Qual será o conteúdo curricular para o Ensino Religioso? O Ministério da Educação, criou a Graduação em Ciência da Religião – Licenciatura em Ensino Religioso, entretanto, não definiu suas normatizações curriculares. O Conselho Nacional de Educação confirmou um parecer em 1999, que versa da formação de professores para o Ensino Religioso nas escolas públicas de ensino fundamental, reconheceu que a lei nº 9475/97, que dá nova redação ao art. 33 da Lei n° 9.394, de 20 de dezembro de 1996, e estabelece as diretrizes e bases da educação nacional, não se refere ao estabelecimento de cursos que habilitem a essa docência, mas delega aos sistemas de ensino o estabelecimento de normas para habilitação e admissão de professores a todas as áreas do conhecimento.

O que pressupõe que há o recrutamento em diferentes áreas e devem obedecer a um processo específico de habilitação de acordo com as necessidades. Todavia, neste parecer também está destacado que é preciso evitar que o Estado interfira na vida religiosa do povo bem como na autonomia dos sistemas de ensino, no caso específico do Ensino Religioso é necessário ter o cuidado com o proselitismo.

Desse modo, o perfil profissional docente reflete essa orientação do Conselho Nacional de Educação, na qual a diversidade é significativa quando se analisa as redes estaduais, “com diferentes critérios de admissão de professores, refletindo na aceitação das mais diversas habilitações”. “Neste ponto, não há, até o momento, nenhum tipo de recomendação emitida pelo Conselho Nacional de Educação, fazendo valer a autonomia dos entes federados para as definições do perfil de professor a ser habilitado” (SOUZA, 2016).


Com este posicionamento do Conselho Nacional de Educação, percebesse a ausência de orientações por parte da União na definição da formação de professores na disciplina de Ensino Religioso e consequentemente a não definição de um currículo único e uniforme. Razão pela qual o Ensino Religioso no Brasil está se adequando as realidades regionais, fazendo com que surjam variações de modelos, muitas vezes completamente distintos. Segundo Freman (2017), alguns autores têm trabalhado para tipificar esses diferentes modelos de Ensino Religioso. A FONAPER (Fórum Nacional Permanente do Ensino Religioso) elaborou uma proposta fenomenológica, coerente e consistente em fundamentos epistemológicos e didáticos do Ensino Religioso, objetivando consolidar a disciplina numa área de conhecimento com autonomia teórica e metodológica. Freman (2017), cita ainda em seu artigo alguns autores:

A pesquisadora Giseli do Prado Siqueira, em sua dissertação de mestrado, propõe três modelos de ER, o modelo confessional, ligado a uma religião; o ecumênico, organizado entre as denominações cristãs; e um modelo que define o ER como educação da religiosidade, tendo Paul Tillich e Wolfgang Gruen como bases desse pensamento (SIQUEIRA, 2003, pag.49-51).

E ainda:

O teólogo e cientista da religião João Décio Passos, por sua vez, considerou três modelos básicos: o catequético-doutrinal, o teológico-ecumênico e o da Ciência da Religião (SOARES, 2010, pag.120).


Estes modelos são formas que buscam mapear algumas praticas do Ensino Religioso, não sendo exclusivistas ou definitivas, mas cada uma tem uma proposta metodológica, e apresenta a sua cosmovisão religiosa, que é reflexo de concepção política e cultural  que compreende as relações entre a Igreja e o Estado, e de como desenvolver o processo de ensino e aprendizagem e tantas visões de mundo.

Considerações finais



A relevância e a contribuição do Ensino Religioso no Ensino Fundamental não estão naturalmente na conversão a uma crença ou filosofia religiosa. Sua relevância está na contribuição da formação de indivíduos que desenvolvam o senso crítico, proveniente do conhecimento adquirido, que se basea na verdade sem tendências previas e obscuras inerentes ao proselitismo religioso.

A formação da sociedade brasileira não consiste apenas na mistura de raças, mas também nas consequências que estas miscigenações trouxeram com a riqueza de suas culturas, levando ao nascimento de uma identidade nacional. A identidade brasileira é fruto dos mais diversos embates culturais e adaptações as condições a que tiveram que enfrentar como o sincretismo religioso, a gastronomia, o comportamento e até a língua entre tantos outros. Os brasileiros em maioria têm fortes heranças e ligações com as diversas religiões presentes no Brasil, essa influência pode ser observada desde os nomes próprios como em comportamentos cotidianos. Isto é, a religião está presente em toda a cultura brasileira, como na música, nas vestimentas, no vocabulário, na língua etc. A religião nada mais é do que fruto do desenvolvimento cultural de um povo em sua vivência e construção como grupo socialmente organizado.

Sendo a escola o espaço natural de reprodução destas diversidades brasileiras, onde ocorrem encontros e enfrentamentos, porque negar a religião que é parte integrante, influente e componente desta formação de povo brasileiro? Creio que para efetividade deste, é necessário organizar formas que viabilizam o quanto antes a normatização dos conteúdos dos currículos em que prevaleça o laicismo, sem ferir a verdade sobre a natureza de cada religião ou vertente religiosa.

A contribuição do Ensino Religioso fica evidente não só na ampliação do conhecimento, mas através dos princípios religiosos, ao incentivar o altruísmo, a bondade, cortesia e os diversos valores morais, éticos e de convivência que está no cerne dos princípios religiosos. Se o papel da escola é tornar-se um espaço de enfrentamento e de encontro críticos de uma sociedade, séria uma falha excluir o Ensino Religioso e todas as suas contribuições.































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